sábado, 30 de maio de 2015

Oficina p Unicamp. Exercitando o resumo.

RESUMA OS DOIS TEXTOS. (tamanho ENTRE 15 A 20 LINHAS CADA UM).

OPINIÃO
Prefeitura de São Paulo deve sancionar lei que proíbe o comércio de foie gras? Não
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GABRIEL MATTEUZZI: FIM DO LIVRE ARBÍTRIO
Lembro das refeições de quando era criança, na Espanha, e fico fascinado como, apesar dos costumes à mesa serem simples, comíamos muito bem. Minha mãe fazia questão que tivéssemos um jantar cinco estrelas em ocasiões especiais, Natal e Ano-Novo. Os produtos, aqui considerados "caríssimos", como caviar ou foie gras (do francês, fígado gordo), lá eram acessíveis.
Fui educado para priorizar gastos, economizávamos durante o ano para poder "chutar o pau da barraca" em ocasiões especiais. Penso que foi daí que surgiu meu interesse pela profissão –que se resume ao prazer de servir e de comer.
Os anos passaram, entrei na cozinha e aos poucos fui aperfeiçoando o conhecimento de produtos que são sinônimos de técnica. Um deles é o foie gras, presente em todos os restaurantes por onde passei durante meus 20 anos de carreira e onde aprendi a elaborá-lo de maneira correta para extrair o melhor dele.
Os primeiros relatos sobre o consumo de fígado de patos ou gansos são do século 25 a.C., onde se buscava aves que estavam em período migratório e tinham comido quantidades acima da média para suportar a longa viagem. Por isso, apresentavam fígados mais gordos do que o normal. Esse método é seguido desde 1812 pela Patería de Sousa, na Espanha.
Pouco depois percebeu-se que, com o desenvolvimento da técnica de engorda dos patos, conhecida como "gavage", era possível dispor do produto não apenas nas épocas migratórias das aves, mas o ano inteiro. Assim, essa prática se espalhou pela Europa e pelo mundo.
Com a experiência, constatei que a relação entre a qualidade do produto está diretamente relacionada à qualidade de vida de qualquer animal. Se o animal for maltratado, o alimento não se tornará o produto de boa qualidade que buscamos.
O processo de "gavage" tem que ser controlado e realizado de forma precisa para não causar danos a outras partes do animal, pois do pato não se consome apenas o fígado. Consumimos também o "magret" (peito) e o "confit de canard" (coxa e sobrecoxa confitado na própria gordura do pato).
O período de engorda ou confinamento de animais é algo realizado pela nossa sociedade há milênios, não só com patos ou gansos, mas como todo animal que passa pelo processo de abate, como bovinos. Bois são confinados por meses em um espaço reduzido e sendo alimentados, muitas vezes, de forma compulsiva a fim de ganhar peso e lotar as prateleiras dos supermercados em curto espaço de tempo.
Os índices de morte prematura de galinhas e perus são maiores que os dos patos ou gansos, seja pela quantidade de hormônios a que são submetidos ou pelas precárias condições em que vivem.
Devemos proibir tudo isso também? Proibiremos a pesca de arrastão –técnica usada na maior parte do nosso litoral que, sob o ponto de vista ambiental, prejudica nossa fauna marinha? Essa lei abrirá precedente para futuras leis? Ou simplesmente estamos perdendo nosso poder de livre arbítrio? Afinal quem não quiser comer foie gras, não precisa comer.
Mesmo sancionada, a lei não solucionará o possível problema em questão: o bem-estar dos animais. Simplesmente fechará a porta de alguns produtores que tentam produzir de forma artesanal uma iguaria consumida por poucos.
Do ponto de vista turístico, uma cidade como São Paulo –que se pretende a "capital mundial da gastronomia", segundo a própria Câmara Municipal da cidade– pode se dar ao direito de vetar a venda de um produto considerado por muitos ícone da gastronomia mundial?
Espero que essa lei não seja sancionada. Espero também que meus clientes, assim como minha equipe e eu, possamos continuar desfrutando do tão apreciado foie gras.
GABRIEL MATTEUZZI, 38, chefe de cozinha e proprietário do restaurante Tête à Tête, é formado pela Escola Hofmann, em Barcelona
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OPINIÃO
Prefeitura de São Paulo deve sancionar lei que proíbe o comércio de foie gras? Sim
FRANK ALARCÓN: CRIANÇAS EGOÍSTAS
O que devemos pensar de práticas que obrigam animais enclausurados a uma alimentação forçada, que alteram a fisiologia de suas vísceras, onde estas são extraídas de forma sanguinária, moídas, embaladas e vendidas como iguaria a consumidores voluntariosos?
E o que devemos pensar de consumidores que pouco se importam com as consequências de seus prazeres gastronômicos? Respostas para as duas perguntas se relacionam com a cruel produção e comércio do foie gras (fígado gordo, em francês), atividades que a Câmara de São Paulo busca proibir mediante sanção do prefeito Fernando Haddad.
A palavra-chave é egoísmo. Sob o risco de ter seu negócio e capricho gastronômico obstruídos, produtores e consumidores do foie gras reivindicam seu direito de vender/consumir o que bem desejarem, quando quiserem. Uma questão de fundo puramente pessoal, dizem eles.
Esse raciocínio raso ignora convenientemente uma terceira parte envolvida, à revelia, que é submetida a uma vida miserável para que desejos culinários de alguns minutos sejam atendidos.
Tudo indica que para os reféns do paladar, animais não são dignos de consideração moral. Assim como coisas, animais poderiam ser aprisionados, submetidos a rotinas de convívio dolorosamente artificial, alimentação e iluminação forçada e uma vida abreviada por um pescoço quebrado, uma degola ou outra crueldade que a criatividade humana possa conceber.
Sim, a palavra é esta: crueldade. O sofrimento animal transcende o momento de seu assassinato diante de uma existência de penúria deliberadamente provocada.
Defensores do foie gras e da exploração animal parecem viver ainda na tenra infância –período em que a conduta egocêntrica mais se manifesta. Para essas crianças que comandam cozinhas em francês e frequentam restaurantes com ternos e saltos altos, se animais sofrem como consequência de suas vontades, o azar é deles.
O sofrimento desses animais é desprezível diante do prazer de comer e cobrar –caro– por 100 gramas de crueldade. Aqui, demanda e oferta apadrinham o casamento entre egoísmo e economia. Alguns iludidos alegam que matar animais é tradição, registro cultural praticado há séculos e que, portanto, deve ser preservado. Constrangedor!
Não vivemos mais na Idade da Pedra nem comemos cotidianamente com as mãos nuas. Há séculos incorporamos à nossa rotina alimentar artificialidades como talheres, pratos, cocção de alimentos, guardanapos e papel higiênico.
Invocar o apego às raízes e à preservação cultural, além de embaraçoso, apenas revela quão escravos alguns segmentos da nossa sociedade são de tradições retrógradas.
Tristes são os tempos em que deve ser a força da lei, e não a sensatez, quem governa nossas ações. A proibição municipal do foie gras é preciosa tanto em caráter pedagógico como prático. Resistências a essa proibição são sintomas sérios de transtorno moral maior.
Provoco: Quem ousará proibir a produção e comércio do "foie gras" das classes B, C e D (a salsicha, a linguiça e o hambúrguer) em um país onde 70 milhões de bois e suínos e 5 bilhões de aves foram assassinados apenas em 2014 com os auspícios do governo federal?
Diante da inexistência de uma sociedade corajosa ou de líderes carismáticos capazes de discutirem seriamente a ética animal, mudanças incrementais não são desprezíveis. Explorar animais é eticamente equivocado, ambientalmente nocivo, nutricionalmente desnecessário. Egoístas discordarão.
FRANK ALARCÓN, 41, biólogo, é coordenador no Brasil da ONG Cruelty Free International
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