HUMANIZAÇÃO DA MEDICINA
Excerto A
A humanização é vista como a capacidade de oferecer atendimento de qualidade, articulando os avanços
tecnológicos com o bom relacionamento.
O Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) destaca a importância da
conjugação do binômio "tecnologia" e "fator humano e de relacionamento". Há um diagnóstico sobre o divórcio
entre dispor de alta tecnologia e nem sempre dispor da delicadeza do cuidado, o que desumaniza a assistência.
Por outro lado, reconhece-se que não ter recursos tecnológicos, quando estes são necessários, pode ser um
fator de estresse e conflito entre profissionais e usuários, igualmente desumanizando o cuidado. Assim, embora
se afirme que ambos os itens constituem a qualidade do sistema, o "fator humano" é considerado o mais
estratégico pelo documento do PNHAH, que afirma:
(...) as tecnologias e os dispositivos organizacionais, sobretudo numa área como a da saúde, não funcionam
sozinhos – sua eficácia é fortemente influenciada pela qualidade do fator humano e do relacionamento que se
estabelece entre profissionais e usuários no processo de atendimento. (Ministério da Saúde, 2000).
(Adaptado de Suely F. Deslandes, Análise do discurso oficial sobre a humanização da assistência hospitalar. Ciência &
saúde coletiva. Vol. 9, n. 1, p. 9-10. Rio de Janeiro, 2004.)
Excerto B
A famosa Faculdade para Médicos e Cirurgiões da Escola de Medicina da Columbia University, em Nova York,
formou recentemente um Programa de Medicina Narrativa que se ocupa daquilo que veio a se chamar “ética
narrativa”. Ele foi organizado em resposta à percepção recrudescente do sofrimento – e até das mortes – que
podia ser atribuído parcial ou totalmente à atitude dos médicos de ignorarem o que os pacientes contavam
sobre suas doenças, sobre aquilo com que tinham que lidar, sobre a sensação de serem negligenciados e até
mesmo abandonados. Não é que os médicos não acompanhassem seus casos, pois eles seguiam
meticulosamente os prontuários de seus pacientes: ritmo cardíaco, hemogramas, temperatura e resultados dos
exames especializados. Mas, para parafrasear uma das médicas comprometidas com o programa, eles
simplesmente não ouviam o que os pacientes lhes contavam: as histórias dos pacientes. Na sua visão, eles
eram médicos “que se atinham aos fatos”. “Uma vida”, para citar a mesma médica, “não é um registro em um
prontuário”. Se um paciente está na expectativa de um grande e rápido efeito por parte de uma intervenção ou
medicação e nada disso acontece, a queda ladeira abaixo tem tanto o seu lado biológico como psíquico.
“O que é, então, a medicina narrativa?”, perguntei*. “Sua responsabilidade é ouvir o que o paciente tem a dizer,
e só depois decidir o que fazer a respeito. Afinal de contas, quem é o dono da vida, você ou ele?”. O programa
de medicina narrativa já começou a reduzir o número de mortes causadas por incompetências narrativas na
Faculdade para Médicos e Cirurgiões.
*A pergunta é feita por Jerome Bruner a Rita Charon, idealizadora do Programa de Medicina Narrativa.
(Adaptado de Jerome Bruner, Fabricando histórias: direito, literatura, vida. São Paulo: Letra e Voz, 2014, p. 115-116.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário