terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Tema de redação: Unesp e Unifesp. Limites da ação policial


A Polícia Militar é uma organização composta de pessoas procedentes das mais diversas classes sociais, com formações, personalidades, grau de instrução diferenciados, além de sociabilidade de toda natureza. São homens que carregam toda uma gama de complexos, recalques, traumas e marcas e que, muitas vezes, habitam áreas povoadas de marginais.
Com todos esses agravantes, considerando um universo de milhares de homens, a Polícia Militar se depara com inúmeros problemas de ordem social que surgem de todos os lados, ora relacionados com o policial militar, ora com seus dependentes, podendo-se citar aqueles que mais os afligem, sejam eles: os ligados à escolaridade, à saúde, à habitação, à assistência social, jurídica, médica hospitalar e à remuneração. A reunião desses fatores acaba por atingir a própria instituição com a deflagração de altos índices de violência praticada por policiais militares no desempenho de suas atividades constitucionais.
A execução das ações policiais, de um modo geral, no Brasil, ocorre com base no que se pode chamar de rigor  necessário. Na maioria dos casos, a sociedade justifica certos tipos de práticas pelo fato de as vítimas serem, suspeitos ou bandidos. Porém, o senso comum julga que, no combate eficiente contra a marginalidade urbana, a polícia precisa aplicar o mesmo código de conduta dos transgressores, o que torna cada vez mais difícil e arriscado diferenciar uns dos outros. Deste modo, a truculência e o despreparo de alguns profissionais designados para propiciarem a segurança pública torna cada vez mais tênue a linha que os separa dos verdadeiros marginais e bandidos.
(...) É fato que a polícia tem por atribuição a garantia da integridade física, da liberdade e da prosperidade das pessoas, bem como a preservação da ordem pública. Mas é fato também que somente educação e treinamento não tornam o policial militar um homem perfeito, eficiente e eficaz em seu trabalho de segurança pública.
Qualquer ser humano pode ser violento, haja vista que a agressividade pode ser estimulada pelo ambiente conforme foi visto neste estudo. Assim, não se pode dizer que a polícia militar seja violenta, mas pode-se afirmar que, por um conjunto de fatores – entre eles: o salário irrisório, a moradia muitas vezes na vizinhança dos marginais, a falta de condições de bem educar seus filhos e zelar pela sua saúde – qualquer homem, não necessariamente um policial militar pode tornar-se violento e tendente à fazer a justiça com as próprias mãos.
Os policiais militares, em seu período de instrução e treinamento, tomam conhecimento do que postula a Constituição Federal, os Códigos Penal, de Processo Penal e de Processo Penal Militar. No entanto, a adoção da medida juridicamente correta vai depender da condição em que esteja esse cidadão no momento em que é exigida sua ação.
A ação do policial militar, na maioria das vezes deve ser instantânea. Nesses casos, o homem não tem tempo de raciocinar, não tem tempo de recitar os artigos constitucionais. Nesse momento, a linha que o separa do arbitrário passa a ser seu próprio conceito de justiça e o instinto de sobrevivência.  https://jus.com.br/artigos/72101/uso-da-forca-policial-limite-entre-o-legal-e-o-arbitrario

Segundo Santos et al. (2000) a palavra polícia é derivada do grego polis, que significa cidade, induzindo à compreensão de civilização, progresso, estado adiantado, em oposição a bárbaro que denominava aquele que não vivia nas cidades. Policiais seriam então os vigilantes do local específico de reuniões harmoniosas daqueles que viviam em sociedade.
Mas, afinal, para que polícia? Existe até uma música que questiona “quem precisa de polícia”? Todos os cidadãos precisam de polícia porque vivem num mundo urbano e complexo e a sociedade tem a necessidade simbólica de uma autoridade que a faça limitar-se. A polícia é um segmento da sociedade, instituído pela própria cidadania para que ela se autolimite. Não existe uma sociedade minimamente organizada sem o conseqüente poder de polícia.
O modelo brasileiro de polícia militar funciona bem dentro das peculiaridades do país, no entanto, vive-se hoje uma recrudescente falta de segurança pública; fato amplamente propalado pela mídia, além de sentido e reclamado por todos os segmentos da sociedade, devido ao vertiginoso aumento da escalada de violência, que, a cada dia, revela-se multivariada e perversa, excedendo aos limites da razoabilidade, suportabilidade e aceitabilidade e que a Polícia não tem conseguido avaliar, controlar e evitar. Essa imagem passada pela mídia em relação à conjuntura atual, além de atribuir à Polícia Militar a responsabilidade maior, aduz ineficiência e ineficácia nesse combate.
Entretanto, sabe-se que a efetividade desse controle não depende apenas da Polícia Militar, uma vez que suas causas não resultam somente da falta de policiamento ostensivo, posto que este controla e evita (ou pelo menos tenta evitar) as conseqüências delituais e infracionais e não suas causas. Estas têm origem em outros fatores e aspectos.
A atual conjuntura se define na frase de Sachs apud Freitas (1996) qual seja: "Estado desorganizado; crime organizado!". E, nesse sentido, a Polícia Militar não representa e não é o Estado; ela é apenas instrumento e manifestação deste, mediante o exercício do seu poder. É, pois, o "braço armado e forte" de que dispõe o Estado por intermédio do Poder Judiciário - como sistema de controle criminal e social - na consecução de seus fins: o bem comum.
Além disso, saliente-se que segurança não pode ser medida, alcançada e, concretamente, refletida somente por dados estatísticos. Segurança não se vê, não tem forma, posto ser sensitiva. "E segurança é estado de espírito [...] que nada mais é do que segurança - psicológica" (GOUVEIA, 1989, p. 68), que se manifesta na percepção individual de cada cidadão, com reflexos no grupo social. É, em sentido amplo, um estado sensitivo de bem-estar que influi no coletivo (bem comum). Daí ser objeto finalístico do Estado e não só da Polícia Militar.
Desta forma, é de se supor que os assassinatos, as chacinas, o extermínio, as mortes nos acidentes de trânsito, o crescente estado de pobreza e a miséria, que conduzem à favelização das urbes, o descaso ao presente e ameaçador crime organizado do tráfico de drogas, entorpecentes e armas, não podem ser considerados normais, pois refletem a desorganização do Estado e o descaso dos Governos Federal, Estadual e Municipal na solução e/ou minimização desses problemas, os quais, aliados, à má distribuição de rendas, à perversa concentração de riquezas nas mãos de poucos e a conseqüente falta de terras produtivas, têm sido as causas dessa gigantesca onda de violência. Constata-se então que os instrumentos de repressão à violência constituído das polícias, da justiça, do sistema penitenciário e criminal não são respeitados.
Quando se pensa nas possíveis causas desse desrespeito, em especial quando se refere àqueles primeiros, a primeira coisa que vem à mente é a contraprestação financeira, normalmente irrisória, que os tornam passíveis e vulneráveis às ações de corrupção e os levam a procurar nas horas de folga o exercício de atividades paralelas e estranhas a seus serviços, aumentando a evasão e o desinteresse pela carreira abraçada. Essa observação se aplica às polícias de um modo geral, pois afeta tanto a Polícia Militar como a Civil. No que tange especialmente à essa última pode-se afirmar que é invariavelmente qualificada de corrupta e desacreditada até pela Polícia Militar, numa generalização que não é de todo correta, conforme acentua Chesnais (1998, p. 25) https://jus.com.br/artigos/72101/uso-da-forca-policial-limite-entre-o-legal-e-o-arbitrario/2

A questão da democracia é, então, um ponto de extrema importância nesse debate. Isso porque a violência policial inevitavelmente gera as mais graves violações aos direitos humanos e à cidadania, que são elementos inerentes ao regime democrático. Alguns estudos, sobre a mesma temática da violência policial e do autoritarismo, desenvolvidos pelo cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, da Universidade de São Paulo, demonstram que as práticas policiais de natureza autoritária são práticas que têm acontecido independente do regime político. Isso se deve, segundo a análise de Pinheiro, a uma continuidade de práticas utilizadas no regime autoritário que a transição política não conseguiu extinguir, pelo fato dos governos de transição terem tratado os aparelhos policiais como organismos neutros nos quais a democracia política atacaria suas raízes autoritárias. Esta continuidade, entretanto, possibilitou a adequação de práticas autoritárias dentro de um governo democrático, gerando com isso a existência de um “regime de exceção paralelo”.
Para tentar se encontrar um caminho que ajuste os órgãos de segurança à realidade democrática, é importante, antes de tudo, que a sociedade descubra que tipo de polícia ela quer: uma polícia que respeite os direitos do cidadão, que exista para dar segurança e não para praticar a violência; ou uma polícia corrupta (que livra de flagrantes os filhos das classes abastadas) e arbitrária (que utiliza a tortura e o extermínio como métodos preferenciais de trabalho e que atingem na sua maioria as classes populares). Dentro disto, é preciso pensar nas formas de restringir as oportunidades da polícia utilizar a violência ilegítima, seja através do rígido controle de armamentos ou do limite do reconhecimento da legitimidade do uso da força a situações particulares. Finalmente, o que não se deve perder de vista dentro desta discussão é o risco que a tolerância à violência policial acarreta para a democracia. Sem uma polícia condizente com práticas democráticas e de respeito aos direitos fundamentais do cidadão vai existir sempre a ameaça de que o “regime de exceção paralelo” transforme-se num regime institucional. http://www.dhnet.org.br/dados/jornais/edh/br/jornal_edh/j5/vpolic.html

Uma menina de oito anos de idade morreu na madrugada deste sábado (21) no Rio de Janeiro. Ágatha Vitória Sales Félix foi baleada na noite de sexta (20) e foi levada a uma Unidade de Pronto Atendimento, mas não resistiu. A criança foi atingida enquanto estava dentro de uma kombi com familiares, passando pela comunidade da Fazendinha, que faz parte do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio.  Em nota oficial, segunda a polícia, o tiro que matou a menina foi disparado quando equipes da Unidade de Polícia Pacificadora que patrulhavam a região reagiram a um ataque simultâneo de “várias localidades da comunidade”. 
             A versão de moradores da Fazendinha divulgada neste sábado por meio de redes sociais é de que não houve o ataque a que a polícia se refere. Em entrevista ao jornal O Globo, Elias César, tio da vítima, também afirmou que não houve confronto.  “A ação da Polícia Militar se deu porque os policiais haviam mandado um motociclista parar, mas ele não atendeu à ordem. A kombi estava no Largo do Birosca (na Fazendinha) e os policiais atiraram na moto. É mentira que teve tiroteio, foi um tiro só. Nenhum PM foi atacado”. (...).
              A difícil realidade vivida pela população das comunidades e enfrentada por nossos policiais, diariamente, nos faz profundamente solidários a dor e o sofrimento sentidos pela morte da pequena Ágatha. Ela foi ferida ontem quando criminosos atacaram covardemente policiais da UPP.
               O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, responsável pela polícia do estado, costuma recorrer às redes sociais para defender as ações de sua gestão, mas não havia se manifestado ali sobre o caso até o fim da tarde de sábado. O governo fluminense emitiu nota oficial, por meio de assessoria, dizendo “lamentar profundamente a morte da menina Ágatha, assim como a de todas as vítimas inocentes durante ações policiais”. Ao longo da manhã de sábado (21), houve manifestação nas ruas do Complexo do Alemão. Moradores e ativistas, a pé e também em motocicletas, saíram com cartazes pedindo o fim da violência nas comunidades do Rio. Por meio de um alto-falante, um morador afirmou: "Não queremos mais ver crianças morrendo. Chega de covardia".
( ...) “Em todas as comunidades se perdem vidas inocentes por essa política montada pelo governo do Estado. O Complexo do Alemão está presente, sim! Não queremos que a Agatha venha a ser apenas mais uma foto estampada. Vamos lutar pelos nossos direitos dentro da comunidade, onde vários inocentes são atingidos por 'balas achadas' todos os dias ”
(...) Ágatha Félix foi a quinta criança morta por tiros no Rio de Janeiro em 2019, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Neste ano, o estado fluminense, bate recordes nas mortes causadas por agentes públicos, de acordo com dados oficiais do Instituto de Segurança Pública. 
( ...) O número de mortos por ações policiais está no patamar mais alto em mais de duas décadas. O índice de demais assassinatos caiu — uma tendência registrada no Brasil como um todo desde 2018.  (...) O governador Witzel, que assumiu o governo em janeiro de 2019, tem se notabilizado pela chamada linha dura na área de segurança pública. Ex-juiz federal, ele é defensor de que agentes do Estado atirem para matar e do endurecimento de leis penais, apoiando a conduta de policiais no combate ao que chama de “narcoterroristas”.  O governador já apareceu vestido com trajes de policial e dando tiro de sniper, fazendo flexões com um batalhão e a bordo de um helicóptero do qual um policial dispara tiros na cidade de Angra dos Reis. 
                    Em agosto de 2019, logo após um atirador de elite matar o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói, Witzel chegou ao local de helicóptero e desembarcou comemorando, com sorriso e gestos de satisfação. (...) No mesmo mês, o governador afirmou que os assassinatos de inocentes no Rio de Janeiro são responsabilidade de defensores de direitos humanos, pelo fato de estes questionarem a política de policiais atirarem para matar. A fala foi duramente criticada por várias entidades, inclusive a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/09/21/A-morte-de-mais-uma-crian%C3%A7a.-E-a-viol%C3%AAncia-policial-no-Rio

Para o professor Adalmir Leonídio, coordenador do Observatório da Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais da USP, há similaridades entre a situação nos Estados Unidos e no Brasil. “Nos dois países, o alvo preferencial da violência policial – que se traduz em tortura e assassinatos – são preferencialmente negros e pobres, moradores dos chamados ‘territórios da pobreza’. No entanto, precisamos considerar a desproporção numérica entre as duas realidades. O Brasil mata muito mais negros e pobres que os Estados Unidos”, ressalta.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dos 5.896 boletins de ocorrência de mortes devido a intervenções policiais entre 2015 e 2016, 76,1% das vítimas eram negros: 5.769 homens e 42 mulheres. Grande parte é jovem: 35,5% têm idades entre 18 e 29 anos. Em 2018, o número de mortes cometidas por policiais na ativa subiu para 6.160 pessoas.
(...)
Mas o que justifica essa filtragem racial da polícia brasileira? Para Leonídio, não há dúvidas: no Brasil, existe um senso comum penal desde o início da desagregação do trabalho escravo no País que relaciona negros e pobres ao potencial criminoso. “Essa parcela da população está envolvida em um clima de permanente suspeição. Nesse novo governo em particular, esse senso comum penal não só foi exacerbado como tem sido explicitamente assumido, o que tem sido favorável à execução de pobres e pretos”, salienta.
Para o especialista, a própria legislação criminal permite a predisposição ao combate arbitrário do “criminoso”, que, ressalta, é uma produção social. “O sistema penal não visa combater o crime, mas o criminoso: essa figura é envolta em todo um manto de estigmas e que obviamente não vai ser o rapaz branco, de classe média”, diz.
Por isso, segundo Leonídio, existe uma “produção criminológica” para o enquadramento desta população à margem da sociedade. “Essas pessoas não são absorvidas pelo mercado de trabalho, não fazem parte da lógica mercantil em evolução e é preciso fazer alguma coisa delas. Isso vai ser muito mais grave em países como o Brasil, onde há uma História de quatro séculos de escravidão. Existe um inimigo interno a ser combatido que, há cem anos, era o ex-escravo. Hoje é o morador da periferia pobre, que se configura como uma ameaça permanente ao patrimônio dos ricos”, reitera. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/racismo-institucional-leva-policia-do-brasil-e-dos-eua-a-matar-mais-negros-e-pobres/

Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma dissertação, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: o uso da força policial: em que momento deixa de ser um ato constitucional e passa a constituir uma atitude arbitrária? 

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